Cerca de 922 servidores da Prefeitura de Campestre do Maranhão (MA) podem ser afetados por uma disputa política que envolve as eleições presidenciais deste ano.

Relatos de funcionários e mensagens compartilhadas em grupos de comunicação apontam que o prefeito Fernando Bermuda (PSB) teria pressionado trabalhadores municipais a apoiarem Flávio Bolsonaro (PL), sob ameaça de desligamento após o pleito.
Segundo relatos obtidos pela reportagem do Metrópoles, o prefeito teria enviado mensagens em grupos e canais de transmissão afirmando que servidores que votassem em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderiam perder seus cargos.
Uma das mensagens atribuídas a Bermuda, divulgada em 4 de agosto durante a divulgação de um culto realizado pela prefeitura, dizia: “Vamos ao culto hoje na Assembleia de Deus. Todos Flávio Bolsonaro. Quem votar em Lula, após a eleição, tá na rua”.
Os relatos também incluem a circulação de uma música criada com auxílio de inteligência artificial em grupos do município. A letra relaciona a permanência no emprego público ao apoio ao candidato do PL e afirma que aqueles que não apoiassem Flávio Bolsonaro deveriam “arrumar a mala e ir pra obra”.
Um servidor da Secretaria Municipal de Educação, que preferiu não se identificar por receio de represálias, afirmou que esse tipo de comportamento seria frequente.
“Ele sempre foi assim, só fala com os funcionários na base da ameaça e da ignorância. Todos têm que fazer só as vontades dele. Se não fizer, é perseguido. A gente aguenta porque precisa do emprego, precisa sustentar a família”, relatou.
Especialistas em direito eleitoral apontam que ameaças de demissão motivadas por preferência política podem configurar assédio eleitoral. A prática pode resultar em punições previstas na legislação, incluindo multa e outras sanções. A conduta também pode ser analisada como possível abuso de poder político.
Mensagens também pedem apoio a aliados
Além das supostas ameaças, registros de conversas mostram o prefeito pedindo apoio político a candidatos aliados. Em uma das mensagens, Bermuda afirma que a continuidade das ações da administração municipal dependeria da eleição de deputados e senadores de sua base.
“Gente, peço que vocês olhem e lembrem do trabalho que eu faço. Esse tipo de trabalho e atenção à população, em Campestre ninguém nunca fez. Mas eu dependo das pessoas para fazê-los. Os deputados e senadores são meus parceiros para custear esse trabalho”, escreveu.
Em outro trecho, o prefeito pede que moradores apoiem seus candidatos e relaciona a continuidade de serviços públicos ao resultado eleitoral.
“Peça para as pessoas que estão pensando em apoiar esses outros candidatos para apoiar apenas os nossos. Pois o hospital depende dos nossos pré-candidatos”, afirmou.
A reportagem também teve acesso a mensagens em que o prefeito responde a críticas feitas por moradores nas redes sociais.
Em uma publicação sobre a área da saúde, um internauta questionou o atendimento oferecido pelo município. Bermuda respondeu afirmando que havia médicos e medicamentos disponíveis e, em seguida, fez uma ofensa direcionada ao morador.
Outro registro mostra uma declaração atribuída ao prefeito sobre um suposto furto de veículo. Na mensagem, há uma ameaça de violência contra o suspeito e familiares dele.
Prefeito afirma que mensagens representam sua opinião política
Em entrevista, Fernando Bermuda não negou as mensagens atribuídas a ele, mas afirmou que os conteúdos representam sua visão sobre política e sobre os impactos que o resultado da eleição poderia causar no município.
O prefeito declarou que Campestre do Maranhão recebeu mais de R$ 185 milhões em recursos federais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, mas afirmou enfrentar dificuldades orçamentárias na administração municipal.
Segundo Bermuda, uma eventual mudança no governo federal poderia afetar as finanças da cidade e provocar cortes. Ele afirmou que, caso fosse necessário reduzir o quadro de servidores, começaria por pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores.
“Se eu for obrigado a demitir servidores, vou começar pelos petistas”, declarou.
Depois da conversa com a reportagem, o prefeito afirmou que poderia estar sendo alvo de perfis falsos e montagens utilizando seu nome.
“Em situações como essas, as pessoas montam perfis falsos com o idêntico ao da gente. E se retransmitem, fazendo montagem. Isso está acontecendo, mas tô firme”, disse em mensagem.