Bate sempre uma saudade boa daquela "época de ouro", os anos dourados da nossa cidade do coração e do coração do Maranhão. Éramos felizes e sabíamos. Aquilo nunca mais vai voltar: a afetuosidade, a simplicidade, a inocência, a paz e o amor. Lembro-me bem dos casais; o lugar predileto para os nossos namoros, cheios de beijos ardentes, era no escurinho do cinema — o pequeno e charmoso Cine Canequim que tinha múltipla utilidade, uma delas era teatro para encenação de peças religiosas e outros espetáculos bem como: comédia, drama, musicais e peças infantis.
O visionário por trás da obra
Símbolo cultural de Tuntum, o cinema foi um presente do nosso pároco, Frei Dionísio Guerra. Sempre que ia à sua terra natal, a Itália, o Frei trazia donativos e equipamentos. Em uma dessas viagens, trouxe um veículo tracionado rústico, todo de ferro, usado na Segunda Guerra Mundial. De cara, batizamos o "bruto" de Mondrongo. O semipesado tinha como chofer o Meia Noite e foi de grande valia para a paróquia: era usado nas "desobrigas", levando os Padres, Freiras para pregar a palavra de Deus por toda a sua jurisdição, nos lugares de difícil acesso aonde a mão do governo não chegava, e também para levar os jovens, aos finais de semana, para piqueniques nos açudes de Tuntum e balneários das cidades vizinhas.
O nosso Santo Padre, nessas viagens, sempre buscava algo para beneficiar seu rebanho. Importou também da Itália um projetor de filmes 35mm da marca Cinelabor, modelo Gioca, fabricado em Florença (Firenze). Assim nasceu o Cine Paroquial. O pároco costumava acompanhar os bispos em visitas ao Papa, em Roma — o compromisso oficial chamado "Visita ad Limina Apostolorum". Era nessas idas ao Vaticano que ele sempre retornava com novidades.
A tecnologia e a operação
A moderníssima máquina era operada pelos irmãos Francisco das Chagas Dias Costa (o Chaguinha) e Alcides Dias Costa. Eles eram filhos de Dona Luiza Dias Costa, carinhosamente chamada de "Luiza Motor", por zelar com empenho e precisão pelo prédio que abrigava as nossas fontes de energia elétrica.
Os dois irmãos, às vezes auxiliados por Antônio Mosaico, Meia Noite e seu Deco, operavam o projetor, dando vida à “Sétima Arte”. Sobre o Chaguinha, para quem não o conhece, ele fazia a locução da Rádio da Igreja, era polivalente, um exímio pintor de paredes. Dentre os profissionais de Tuntum, foi o único com coragem para pintar a nossa Igreja Matriz, devido à sua altura. "Chaguinha, o Destemido", conforme avançava o trabalho de pintura, ele ia verticalizando a engenhoca de madeira para alcançar o topo do Templo Sagrado. Faço aqui este justo registro.
A trilha sonora de uma geração
Nossa memória foi moldada por gêneros de ação, comédia, drama, romance, os inesquecíveis bang-bangs italianos e faroestes americanos. Na lista de filmes favoritos, figuram clássicos como Django, O Dólar Furado, Por um Punhado de Dólares, Três Homens em Conflito, Era uma Vez no Oeste, James Bond, Tarzan, Ben-Hur, Os Gladiadores e os românticos Dio Come Ti Amo, Dr. Jivago e Love Story. As trilhas sonoras eram excelentes e nos faziam viajar. Como diz o Rei Roberto Carlos: "São tantas emoções".
O complexo Paroquial e o nome Canequim
O nome "Cine Canequim" surgiu de forma curiosa. Originalmente Cine Paroquial, ele ganhou o apelido porque a cidade possuía um outro cinema, importado da vizinha Barra do Corda por Ylná Pacheco de Souza, chefe do posto da Coletoria Estadual. A sala de Ylná chamava-se Cine Canecão.
Nós, que estudávamos na Escola Paroquial São Raimundo Nonato — parte do complexo dos Padres Capuchinhos junto ao cinema e ao JAPREC (clube social da juventude presidido por Edino Almeida Gonçalves, o "Dr. do Nona") — optamos pelo diminutivo do nome do concorrente. Assim, o Cine Paroquial ficou conhecido por toda a população e cidades vizinhas como o eterno CINE CANEQUIM.
O apagar das luzes e o legado eterno
Como tudo na vida segue o fluxo do tempo, as luzes do Cine Canequim acabaram se apagando e o som do projetor Cinelabor silenciou suas engrenagens. O progresso trouxe novas tecnologias, mas nada substituiu a magia daquela tela iluminada que unia a nossa gente. O prédio e as máquinas podem ter mudado de destino, mas o que ficou gravado em nossa alma é imensurável.
Hoje, ao olharmos para trás, percebemos que o Cine Canequim não era apenas um cinema; era o pulsar social de Tuntum, um monumento à generosidade de Frei Dionísio e ao trabalho de homens como Chaguinha e Alcides. Reviver essas memórias é manter viva a identidade da nossa terra. O "Canequim" permanece vivo em cada lembrança de um primeiro beijo, em cada emoção de um filme de faroeste e na saudade eterna de um tempo em que a felicidade se resumia a um ingresso na mão e um sonho na tela.
Remy da Mata.

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